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16 de July de 2018

#Parcerias

Sylvia Siqueira Campos: "Obrigada, Malala!"

*Por Sylvia Siqueira Campos, militante do Mirim Brasil


A gente nunca sabe aonde a vida vai nos levar. Nos últimos dias, involuntariamente, a história da minha curta vida – porque quero viver até os 100 anos – se repete como aquela música que toca sem parar na cabeça da gente, e que é difícil de passar para a próxima faixa. Filha de 'mãe solo’ acolhida por uma família de coração gigante, no Vasco da Gama, onde nasci e com quem convivi muitos anos de forma intensa aprendendo o significado do amor, agora começo uma nova etapa da minha vida junto com Malala, que inspira resistências e insurgências no mundo.


Um aviso: este não é um texto publicitário. É o que eu consigo dizer a vocês traduzindo meus sentimentos, ainda emocionada e após dezenas de entrevistas durante cinco dias seguidos. Demorei a escrevê-lo porque precisei entender muita coisa. A primeira delas é que a nossa história de luta é antiga, nunca parou e não será interrompida. Digo 'nossa história’ porque não ando só, ando com gente aguerrida, uma mulherada feminista arretada, uma juventude revolucionária, uma criançada inspiradora e muitos homens dispostos a construir justiça com equidade de gênero. Como Malala me disse, enquanto tomava guaraná pela primeira vez, a escolha do Mirim Brasil e do meu nome é porque temos demonstrado consistência numa atuação de 28 anos, e ela sabe que a gente não desiste de lutar por justiça.


Na última terça-feira, caminhei ao lado de Malala, da equipe do Fundo Malala, de jornalistas e "influenciadores das redes sociais" pelas ruas do Pelourinho, em Salvador. Uma experiência inesquecível. As pessoas querem tocá-la e abraçá-la. Tirar foto é consequência da emoção que ela semeia. A equipe de segurança foi super profissional e gentil. A menina que enfrentou o Talibã no Paquistão, em 2012 pelo direito à educação, hoje com 1,61 m, é uma gigante. Ela caminha suave, sorri de leve, acena discretamente. A imagem em movimento é quase messiânica. Ela ouviu atentamente as palavras do guia, fez perguntas, viveu o momento. Esse lugar histórico que é o Pelourinho ficou marcado também por sorrisos encantados e incontáveis «Obrigada(o), Malala!».


Fui uma criança tímida, metódica e idealista. Tive ajuda de muita gente para frequentar a escola. Brinquei muito na rua de pega-pegou, bola no rego, queimado, vôlei, esconde-esconde, pula-corda. Subi em árvores, peguei cajú, goiaba, manga, acerola e macaíba na vizinhança. Quantas crianças já não fazem mais isso… Comecei a trabalhar aos 12 anos. Vendi Avon, Natura, assinatura de revistas. Cuidei da loja de móveis do meu pai, às tardes, no contra-turno da escola. Também fui adolescente aprendiz num programa que a ONG Mirim Brasil teve com os Correios. Eu me divertia organizando correspondências de acordo aos CEPs do Estado de Pernambuco. Sempre gostei de ler. Imaginava o que diziam as cartas.


Ao mesmo tempo, eu não entendia a razão das coisas ao redor, como o "corre" para comprar a comida do dia, pagar a Celpe e o aluguel no sacrifício e sempre atrasado. Por que as pessoas dormem na rua? Por que o ônibus demora tanto? Por que existem bairros com amontoado de gente e outros onde tudo é limpo, tem água e as ruas são largas? Por que me olham estranho falando do meu cabelo ou do meu nariz? É correto a diretora da escolinha não entregar a ficha escolar só porque minha família não pode pagar a mensalidade e isso me levar a repetir a terceira série? Por que minha mãe precisa colocar a comida para o meu pai assim que ele pede, a comida deve estar quente, e ele deixa o farelo no chão para alguém limpar? É tudo muito estranho quando se é criança. Participar do Mirim, me fez perceber que as coisas ao redor tinham uma razão de ser, nada era por acaso, que a meritocracia é um discurso dos ricos que a classe média compra, iludida, que a sociedade funciona de forma perversa e era preciso me colocar no mundo enquanto ser coletivo. A vida não tem sido fácil, mas vale a pena lutar.


A primeira pergunta que me fizeram nas entrevistas dos últimos dias foi: "como você se sente quando soube que é uma das escolhidas por Malala?" De imediato respondi: "Muito feliz! Uma felicidade que traz consigo, na mesma medida, muita responsabilidade". Malala é uma pessoa que fala firme, olhando nos olhos, com a cabeça erguida. Ela parece emanar ondas de potência numa conversa. Por isso, a nossa parceria não é uma jogada de marketing para inglês ver. É compromisso com a causa. É demonstração de consciência política. É reconhecer para o mundo inteiro que o Brasil precisa de apoio para enfrentar o racismo, cuidar e respeitar a população indígena e quilombola, investir na educação pública de qualidade. É coragem para formar laços de solidariedade internacional.


Nosso primeiro laço tem três anos de duração. A parceria entre o Mirim Brasil, organização onde aprendi a ser cidadã, e o Fundo Malala vai envolver mais de 200 jovens em Pernambuco, indígenas, quilombolas e negras periféricas pelo direito à educação pública de qualidade. Vai ter muito barulho estruturado com a juventude decidindo e liderando as estratégias com a potência de quem sente na pele as opressões e quer dignidade agora, em vida. É que não basta ter plano, lei e ficar preso na burocracia da máquina pública. É preciso entender que direitos é uma construção histórica e coletiva.


Malala e eu nos conhecemos pessoalmente há poucos dias, mas nossas vidas já estavam conectadas. Nossas lutas dizem que é preciso uma educação libertadora e assegurar que meninas tenham acesso. A história de Malala ainda é vivenciada por muitas meninas no mundo inteiro, inclusive no Ibura, em Suape, em Pesqueira. Eu conheço muitas jovens que reivindicam, como Malala, seus direitos e precisam da nossa solidariedade na luta. Isso não é caridade, mas, sim, consciência da nossa responsabilidade histórica, por quem lutou por nós, por quem precisa de nós agora e pelas futuras gerações.